Blog do Ajeum

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Texto de Marina Souza – “O feminino”

“Oyá, oh mulher forte, poderosa e sagrada”, dizem os versos do Afoxé Oyá Tokolê (PE), para mim uma das mais simples e contundentes leituras sobre a energia manifesta de Iansã, uma força que não dá espaço a incertezas, ela perfura, fulmina, convoca os corpos à revolução. É a própria energia feminina da transformação, está em tudo, revela em seu movimento o ímpeto de um furacão que não permite que nada permaneça no mesmo lugar. Com Iansã tudo se aprende, ela é a pura raiz dos mais profundos ensinamentos, nem sempre sutis, quase nunca silenciosos, mas de uma capacidade peculiar de iluminação dos oris, dos caminhos.

Iansã é quem comanda o sopro de todos os ventos, leva pra longe as amarguras, os desenganos, traz para perto as mais sagradas oportunidades de reencontro do ser com algo muito precioso, talvez perdido, nas emboscadas do caminho. Iansã é a bela rainha que a todos protege em sua saia, tão grande quanto é seu coração. É a mulher que ensina a guerrear, nos faz entender que a vida é feita de trajetos tão furiosos quanto arrebatadoramente apaixonantes e que para tocá-la é preciso profundidade.

Ela une almas que produzem grandes tempestades, e tempestade é onde se morre e se nasce, onde se cria e onde se destrói. Ajeum é tempestade criada com o sopro sagrado de Iansã, por onde flutuaram corpos/espíritos artísticos na direção do encontro com um feminino voraz, capaz de recitar versos-movimento numa dança que alimenta a chama de suas finitas existências. É a feminina ancestralidade que mora no presente, que se faz perfeição na natureza, que conduz os corpos(afetos) a estados de transmutação…

Oyá é a mulher que carrega no peito efusivas memórias, leva consigo todas as razões que a fazem nunca abandonar suas lutas. Sua fúria é corpo de búfalo, não deixa restar pedra sobre pedra, rasga a própria pele, revira, vai ao ataque e também se cansa. Ela vai a qualquer lugar, vento no rosto e fogo no peito, intuição e a beleza de um milhão de borboletas que descobriram o céu. Nada certo, nem definitivo, não há como controlar Oyá, porque ela é a expressão da natureza no exercício de sua plenitude, movimento, transformação.


Texto por Sabrina Dias e o feminino no processo de criação:

Oya – sobre o feminino, as construções poéticas dramatúrgicas e suas reverberações

 A pesquisa se desenvolve desde os seus princípios trabalhando com Oya – Iansã sendo o mito central. É sobre uma mulher, sua feminilidade, seus devires e as transformações que surgem a partir dela. Em todos os contos e lendas é sempre tratada como a guerreira, forte, destemida, materna e dona de poderes inigualáveis sobre a natureza e seu próprio corpo.

Com os estudos prático-teóricos das qualidades desse orixá, entre elas: vento, búfalo e borboleta, foi possível observar uma identificação com as características, principalmente, acredito eu, por parte das intérpretes que se identificam com essa figura da mulher. Mulheres aqui em questão, negras.

Me lembro do nosso primeiro procedimento para experimentar a corporalidade do búfalo, nesse dia fazia um ano da morte de Marielle Franco e todos nós ficamos muito mexidos. Após o procedimento, na roda de conversa, um dos apontamentos levantados foi a percepção da força feminina muito forte presente na sala de ensaio, vindo das três intérpretes Aysha, Marina e Sabrina e como nossos corpos estavam furiosos e ao mesmo tempo ali naquela experimentação do que vinha a ser esse corpo búfalo tinham tanto a dizer. Tentamos perceber com qual dos arquétipos mais nos identificamos e como nos afeta criativa e imageticamente no trabalho.

Outro atravessamento importante foi a presença de somente mulheres na orientação e provocação cênica do projeto, com pesquisas e vivências sobre o tema:  Deise de Brito, Kanzelu e Yaskara Manzini vieram com muita generosidade e cuidado nos encontros, desde as demandas corporais afro-diaspóricas na preparação e passagens técnicas como na linguagem poética-dramatúrgia do trabalho. A percepção dessas mulheres completamente diferentes entre si nos trouxe um outro ponto de vista e com certeza um firmamento da presença e força do feminino que permeia esse projeto.


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